Publicado por: Alcino Raposo | 9 de Maio de 2010

Cristianismo: De religião perseguida a religião dominante

Uma mulher cristã é martirizada sob Nero em seu re-decreto do mito de Dirce (pintado por Henryk Siemiradzki, 1897, Museu Nacional, Warsaw).

Este ressurgimento do paganismo, mais nacionalista do que nunca, foi acompanhado por perseguições violentas contra a religião que se tomara a sua maior concorrente, o cristianismo. Depois da redacção dos Evangelhos, dois séculos antes, o número de cristãos aumentou regularmente. Trata-se, sobretudo, de comunidades citadinas, constituídas por elementos das classes baixa e média da sociedade. A Igreja desenvolveu-se de forma particularmente rápida e vigorosa no seio das antigas cidades-estado da Ásia Menor. No entanto, a acção missionária cristã tocou precocemente o Ocidente – no aglomerado populacional de Roma os cristãos deveriam rondar a dezena de milhar em 200 e três ou quatro vezes mais no ano 300. Ao fim de algum tempo as comunidades cristãs locais colocaram-se sob a firme autoridade dos seus bispos. A importância crescente do episcopado prejudicou a influência dos patriarcas locais e tornou a organização das dioceses mais eficaz. Cerca de 258, um dos primeiros bispos importantes do Norte de Africa, São Cipriano, insistia na solidariedade que unia os cristãos de todas as classes sociais. De facto, esta observação estava correcta pois a Igreja possuía uma solidariedade e uma coesão sem rival entre as religiões dessa época. Isto não impediu que, desde o início, os cristãos tivessem que enfrentar opositores. No Levante, os Gregos nunca gostaram deles porque se distinguiam ostensivamente do resto da população: os adeptos de Jesus proclamavam-se estrangeiros, viajantes de passagem. Esta atitude pouco amigável acabou por se estender também ao seio da administração imperial romana. Durante o reinado de Nero, em 64, os cristãos já tinham sido acusados de serem os responsáveis pelo grande incêndio de Roma, mas esta calúnia não convencera ninguém. Septímio Severo foi o primeiro a organizar perseguições sistemáticas em todo o império: interditou aos cristãos qualquer actividade missionária e puniu severamente os convertidos. Para as autoridades imperiais, afectadas por dificuldades de todo o tipo, a eficácia da organização dos cristãos parecia, cada vez mais, uma provocação. O imperador Décio considerou intolerável a recusa dos cristãos em acatarem os ritos comunitários pagãos e exigiu que cada cristão observasse, pelo menos uma vez, os ritos religiosos tradicionais. Dado que os membros da Igreja eram, sobretudo, citadinos, tinham dificuldade em passar despercebidos e encontravam-se, assim, perigosamente vulneráveis. Muitos conseguiram escapar no momento da verdade; outros apostataram, ainda que provisoriamente; e outros, por fim, recusando-se terminantemente a sacrificar aos ídolos, foram mortos. Na qualidade de mártires, foram-lhes construídos santuários e a devoção que lhes era dirigida, semelhante à dedicada aos heróis pagãos, constituía um encorajamento poderoso para os outros fiéis. Galieno pôs fim às perseguições e inaugurou uma política de tolerância que durou quarenta anos. Este período de apaziguamento permitiu à Igreja consolidar-se, a ponto de inquietar os pagãos. Um aluno de Plotino, Profiro, redigiu um panfleto, denominado Contra os Cristãos, no qual estes foram ferozmente atacados. Os amigos de Profiro inspiraram, então, a grande perseguição lançada por Diocleciano e pelo tetrarca Galério.

Constantino também foi responsável por uma revolução ainda mais importante: a conversão do império ao cristianismo. De facto, as perseguições lançadas por Diocleciano e Galério não tiveram resultados. Galério, já moribundo, proclamara em 311, de acordo com Constantino e Licínio, o Edicto de Serdica que garantia a liberdade de culto a todos os cristãos. Em 312, Constantino obtém a vitória da ponte Mílvia sob os auspícios do signo da cruz, como ele próprio afirmou. No ano seguinte deu voz, com Licínio, à declaração de tolerância de Galério ao promulgar o Edicto de Milão.

De acordo com a tradição, Constantino devia adoptar um protector divino e a sua escolha recaiu sobre o deus-sol mas, ainda que essa divindade continuasse a figurar nas moedas até 318 ou 319, Constantino já havia revelado na altura da promulgação do Edicto de Milão a sua adesão à fé cristã.

Nos anos seguintes, Constantino pôs em prática uma série de medidas oficiais tendentes a favorecer os cristãos. Os sacerdotes, por exemplo, foram dispensados das obrigações municipais. O bispo de Roma, ou seja, o Papa, foi alojado no Palácio de Latrão e o imperador permitiu que a Igreja tivesse jurisdição própria. Assim, a Igreja e o Estado tinham cada um a sua autoridade suprema. (…)

Fonte: Roma. Mil anos de poder e glória, Selecções do Reader’s Digest.


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